Do muito que tenho lido, visto e ouvido no últimos dias este nosso País, mais do que do défice per si, padece de um significativo e crescente défice democrático. Não digo em termos de representação ou de escolha, que nessa matéria considero que estamos bem; veja-se a miriade de partidos que tivemos a votos e que por pouco não nos transportou para países que despertam para a democracia e que apresentam lençóis por boletins de voto, de tal forma são extensas as escolhas. Todas elas sem grandes programas, tanto por cá, como por esse locais por onde a democracia começa a despertar, diga-se.
Este défice democrático que temos e cresce entre nós deve-se antes, a meu ver, ao facto de não conseguirmos conceber o que está na base da própria democracia: aceitar e respeitar a opinião do outro, mesmo que não concordemos com ela. Aliás, se concordar implica claramente aceitar e respeitar, o contrário não é necessariamente verdade, da mesma forma que descordar não é sinónimo de desrespeitar e não aceitar. E é aqui que reside todo o problema e que me leva a dizer que estamos cada vez mais como antes do tão proclamado 25 de Abril, mas ao contrário. Onde antes não nos podíamos insurgir contra o Poder e contra o Estado, agora parece (para não dizer que não é permitido) que não se pode insurgir contra greves, manifestações e demais protestos.
Que fique claro, antes de continuar, que não sou contra os direitos de greve e manifestação, bem pelo contrário. Creio que, bem mais que o direito, temos muitas vezes o dever de nos manifestarmos, de protestar ou de fazer greve. Muitas vezes é a única forma de se progredir.
O que eu não posso aceitar e deixar passar sem criticar é que os direitos de uns se sobreponham e impeçam os direitos de outros. Isso é, desde logo, a violação do mais básico conceito de liberdade e, como tal, o minar e o inviabilizar os direitos desses uns por causa daquilo que violam aos outros! A minha liberdade e, como tal, os meus direitos acabam onde começam os dos outros e sobre isto não vi ninguém falar convenientemente nos últimos dias.
Para quem organiza greves e protestos neste País, os Sindicatos, a Greve é um bem e um direito supremo, inalienável, intocável e inquestionável contra o qual ninguém tem o direito de estar sob pena de se ser um monstro fascista, totalitário e indigno de opinião e de ter qualquer tipo de direito por mais básico que seja. Pergunto eu, e onde é que está o direito de cada um optar por não participar e ir trabalhar? Será crime este direito? Ou será ele apenas válido e passível de ser exercido quando não há Greve? Se assim fosse o seria o contrário legítimo? É claro que não!
Então, porque razão se considera crime e atentado ao direito de greve (os Sindicatos, é claro) impedir que o piquetes vedem, restrinjam ou diminuam o direito dos outros acederem ao seu local de trabalho em dia de greve para exerceremos seu direito de trabalhar? E porque motivo quase nunca se cumprem os serviços mínimos? Fazê-lo não só é violar os direitos dos outros e, até certo ponto, dizer que a democracia e liberdade só devem estar em vigor quando convém (quase como a Manuela Ferreira Leite defendeu há uns tempos, mas que curiosamente acaba quase sempre por ser imposto quando há greves e logo por alguns de que a mais criticaram e com toda a razão), como é uma forma estúpida e ignóbil de diminuir a greve querendo, por oposição, torná-lá ainda maior.
Porquê? É simples, que valor tem uma greve quando a sua "grandiosidade" se deve até largo ponto ao facto de se impedir o acesso ao trabalho daqueles que querem exercer esse direito? A meu ver, nenhum! E tal só acontece porque neste País há um medo terrível e uma incapacidade enorme de se aceitar a diferença e, talvez ainda mais, o insucesso de coisas que se querem grandes.
A impossibilidade da unanimidade está na nossa matriz; veja-se o quão difícil é, por exemplo, acordar o local para um convívio de dez, ou 12 pessoas. Querem agora fazer com que seja aceitável, por exemplo, os 100% de adesão à greve no Metro de Lisboa? É claro que não! Basta que os que trabalham nas estações façam greve em número suficiente para que estas não possam ser abertas para que todos os outros se vejam privados de exercer o seu direito ao trabalho e, ao mesmo tempo, o direito de mostrarem que não estão a favor do protesto.
Já devíamos ter crescido o suficiente para não termos medo do bicho papão do fascismo, e afins, para conseguirmos, aí sim de forma verdadeiramente democrática, aceitar a convivência pacifica e sempre simultânea destes dois direitos tão importantes. Mas infelizmente não e parece que vamos ter de esperar a extinção da geração anterior à nossa, e talvez mesmo da nossa, para o conseguirmos. Lamentável esta forma manca de sermos e de estarmos.
Album de Recordações
"Para mais tarde recordar!" - Já dizia o anúncio, e porque a cada momento que passa já é mais tarde para recordar...
Sábado, 26 de Novembro de 2011
Sábado, 24 de Setembro de 2011
Aritmados dias
Por vezes as horas e os dias não passam, ou... passam devagar, quase que em marcha-atrás, num irritante ritmo que só o tempo e os seus caprichos sabem ter. Vontades estranhas contra as quais nada podemos fazer, vontades que parecem surgir apenas porque sim.
Assim é o tempo e os seus desígnios. Nada mais como ele passa sempre à mesma velocidade e ritmo, mas despertando amiúdes vezes aquela sensação de imobilidade... mórbida!
Assim têm sido estes últimos dias... de passagem muito lenta!
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
O Cheiro
Havia já alguns anos que não se viam até se terem encontrado para um café naquele Inverno. Nunca tinham perdido o contacto, mas nunca tinham ido além das mensagens ou telefonemas de Natal e aniversários.
Mas naquele Natal a mensagem trazia com ela algo de diferente, nãos nas palavras, que eram as mesmas de sempre – cordiais e deixando entender que algo, em idos tempos, se tinha passado entre eles – mas algo nelas levou a que a resposta fosse feita em viva voz e não na simplicidade de juntar letras numa simples mensagem de texto.
O telefone tocou umas duas vezes até que a sua voz se fizesse ouvir do outro lado da linha e, sem demoras, disse-lhe: “Tenho de ir beber um copo hoje, queres?” Em poucos segundos o encontro estava marcado e entrou no carro para ir ao seu encontro.
E foi assim, ao som de música irlandesa e na melhor noite do ano de Lisboa, que começaram a colocar em dia a conversa em atraso de quase uma década. As horas passaram... voaram enquanto as palavras, essas, jorravam quais cerejas.
Era já tarde quando rumaram a casa, sem grande vontade de o fazer, mas não sem antes agendarem novo encontro, desta feita mais longo, com mais paragens, mais som.
Por entre trocas de olhares cúmplices e toques tímidos no meio da pista, mudaram de paragens e foi então, já em novo destino, que surgiu viajando pelo ar esse inebriante cheiro que lhe aguçou os sentidos e despertou sentimentos fortes há muito tidos como esquecidos.
Tantos anos passados e ainda se lembrava de cada detalhe daquele odor. Estava tudo lá, imutável, cada detalhe a surgir no momento certo, na ordem certa e foi aí que tudo aconteceu, que se deixou prender numa deliciosa sentença perpétua.
Mas naquele Natal a mensagem trazia com ela algo de diferente, nãos nas palavras, que eram as mesmas de sempre – cordiais e deixando entender que algo, em idos tempos, se tinha passado entre eles – mas algo nelas levou a que a resposta fosse feita em viva voz e não na simplicidade de juntar letras numa simples mensagem de texto.
O telefone tocou umas duas vezes até que a sua voz se fizesse ouvir do outro lado da linha e, sem demoras, disse-lhe: “Tenho de ir beber um copo hoje, queres?” Em poucos segundos o encontro estava marcado e entrou no carro para ir ao seu encontro.
E foi assim, ao som de música irlandesa e na melhor noite do ano de Lisboa, que começaram a colocar em dia a conversa em atraso de quase uma década. As horas passaram... voaram enquanto as palavras, essas, jorravam quais cerejas.
Era já tarde quando rumaram a casa, sem grande vontade de o fazer, mas não sem antes agendarem novo encontro, desta feita mais longo, com mais paragens, mais som.
Por entre trocas de olhares cúmplices e toques tímidos no meio da pista, mudaram de paragens e foi então, já em novo destino, que surgiu viajando pelo ar esse inebriante cheiro que lhe aguçou os sentidos e despertou sentimentos fortes há muito tidos como esquecidos.
Tantos anos passados e ainda se lembrava de cada detalhe daquele odor. Estava tudo lá, imutável, cada detalhe a surgir no momento certo, na ordem certa e foi aí que tudo aconteceu, que se deixou prender numa deliciosa sentença perpétua.
Terça-feira, 16 de Agosto de 2011
Farewell
It’s a bit over two years since we got to know each other. We didn’t talk all that much at first, but everything changed last year. The working relationship became a great friendship.
The laughs, the jokes, the drinks, the dinners, all those great moments have now become, all of a sudden, Golden Memories! The joy of life on your eyes, engraved on my mind, will always be there, as well as the plans for some trips together with friends of ours.
I will be drinking one for, and with you today, knowing that I, and some of our friends, will be seeing you every time we get together.
Farewell my friend...
The laughs, the jokes, the drinks, the dinners, all those great moments have now become, all of a sudden, Golden Memories! The joy of life on your eyes, engraved on my mind, will always be there, as well as the plans for some trips together with friends of ours.
I will be drinking one for, and with you today, knowing that I, and some of our friends, will be seeing you every time we get together.
Farewell my friend...
Quarta-feira, 27 de Julho de 2011
Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
Sopas e descanso!
Estes dias têm sido verdadeiramente de sopas e descanso. Férias são mesmo assim, para aproveitar sem horas, com passeios, jantares, praia e amigos. Por terras luas este ano, que a crise não dá para mais, os dias têm sido passados na Costa Vicentina, por entre recantos conhecidos e outros bem mais recatados.Logo veremos onde vamos nos próximos dias, após o regresso a Lisboa, mas já temos alguns passeios em mente, perto de casa, claro, e também em casa de amigos.
De muitas coisas nestes últimos dez dias ficam, para já, três coisas:
Uma praia no fim de uma ravina, com um pequeno riacho, mas para a qual é obrigatório levar cadeiras de praia... Areia é coisa que já fez parte deste pedaço de terra frente ao mar. Talvez para o ano faça parte das nossas paragens. Por agora, apenas a escadaria que leva ao mar... Como que uma pequena pista. Quem a encontrar merece plenamente as horas de paz e sossego que nela passar. Outra dica para ajudar, estamos em Maria Vinagre e a praia não fica nada longe...
Outra nota positiva: L-Colestrol. Pouco depois da saída de Aljezur, em direcção a Lagos e Vila do Bispo, do lado direito da estrada. Não tem nada que enganar. Com sala interior e esplanada abrigada, excelente para o petisco. O difícil é escolher. Sugestão: queijo de cabra gratinado e as pataniscas de bacalhau. O pessoal da casa é 5 estrelas! Havendo tempo, não dispensam uma troca de palavras, trazem sempre na cara um sorriso e, mesmo com a hora de fecho a bater à porta e com todas as mesas já livres, não mandam ninguém embora! Vale a pena a visita.Para esquecer e riscar do mapa: Quintal dos Sabores, em Odeceixe. Uma pena que assim seja, porque até é agradável e tem vários petiscos, mas dizerem-me que um cão não é permitido na esplanada (que tem para cima de 100m2 e meia-dúzia de mesas plantadas a pelo menos dois metros uma da outra), e sem nenhuma indicação em nenhuma das entradas, para mim é motivo para remover permanentemente da rota e passar palavra. Ainda para mais quando a informação é dada para a geral e sem que ninguém tenha antes dito o que quer que seja do cão, que, diga-se, esteve sentado e sossegado o tempo todo. Enquanto uns (L-Colesterol) ganham clientes, outros perdem, é assim. Viva a crise a esperteza de quem a não sabe encarar.
Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Segredos algarvios
Há aqueles para quem o Algarve são as praias cheias de gente e todas aquelas localidades à beira-mar plantadas no centro da Costa Sul. Para nós o Algarve é tudo menos isso... Aliás, essa é a parte que menos interessa e apela. Nada como os extremos!
Usando de uma fórmula de férias muito nossa, as manhãs são dedicadas a passeios e as tardes à praia, depois de um almoço de grelhados em casa. E hoje, neste recanto algarvio onde não dispensamos uns dias de descanso e tranquilidade todos os anos, fomos ao encontro de um dos segredos algarvios descobertos graças às maravilhas da tecnologia, como é o caso do Google Earth.
Às portas de Aljezur, em plena serra e a caminho de Monchique, fica um pequeno aglomerado de casas servido por uma... viela de alcatrão (mas sem casas à volta, como na cidade, antes campos e algumas pequenas ravinas). A ideia com que ficámos após a busca de locais interessantes através de imagens de satélite ficou bem à quem do esperado quando chegámos ao local, mas para compensar tivemos a oportunidade de ver outra forma de ser e de estar na vida.
Uma forma de ser e de estar onde tudo é regido por qualquer outra coisa que não um relógio que nunca consegue parar. O tempo aqui passa bem devagar, talvez mesmo chegue a parar à sombra do telheiro de cada casa para dois dedos de conversa. Os animais andam como querem (ou quase, dependendo da espécie), a agricultura ainda se faz como noutros tempos (ou talvez não), mais biológica e dependente das estações do ano, o verde perde-se de vista e, protegido por toda esta calmaria, um pequeno riacho canta enquanto faz, também ele sem pressas, o seu caminho para jusante.
Não tem mais que uns dez centímetros de profundidade, e segue calmo por entre o vale, cristalino, fresco, brilhante, chegando mesmo em alguns pontos por fazer as vezes da estrada, ou caminho. Sim, que esta gente não se prende ou imobiliza pela falta desses luxos que são estradas alcatroadas e pontes... Não as há?! Não faz mal, arranja-se, aqui dá e lá vão eles cruzar o regato, não sem antes fazerem uns bons 20 metros ao sabor da corrente... É que na outra margem a continuação do caminho fica a uns metros de distância, mas não é isso que as travar.
Aliás, neste pequeno segredo algarvio não há nada que trave as gentes, pelo contrário. Ideia erra a nossa que não sabemos, tão pouco concebemos, vivências diferentes das nossas. Neste pequeno segredo algarvio as gentes não param ante nada, apenas esperam que tudo lhes esteja de feição para seguirem caminho e nota-se-lhes no rosto a tranquilidade e alegria com a escolha feita. Quantos de nós não gostaríamos de ver essa mesma tranquilidade e alegria nos nossos rostos ao olharmos o espelho?!
Foto: Miguel Fonseca, 2011
Usando de uma fórmula de férias muito nossa, as manhãs são dedicadas a passeios e as tardes à praia, depois de um almoço de grelhados em casa. E hoje, neste recanto algarvio onde não dispensamos uns dias de descanso e tranquilidade todos os anos, fomos ao encontro de um dos segredos algarvios descobertos graças às maravilhas da tecnologia, como é o caso do Google Earth.
Às portas de Aljezur, em plena serra e a caminho de Monchique, fica um pequeno aglomerado de casas servido por uma... viela de alcatrão (mas sem casas à volta, como na cidade, antes campos e algumas pequenas ravinas). A ideia com que ficámos após a busca de locais interessantes através de imagens de satélite ficou bem à quem do esperado quando chegámos ao local, mas para compensar tivemos a oportunidade de ver outra forma de ser e de estar na vida.
Uma forma de ser e de estar onde tudo é regido por qualquer outra coisa que não um relógio que nunca consegue parar. O tempo aqui passa bem devagar, talvez mesmo chegue a parar à sombra do telheiro de cada casa para dois dedos de conversa. Os animais andam como querem (ou quase, dependendo da espécie), a agricultura ainda se faz como noutros tempos (ou talvez não), mais biológica e dependente das estações do ano, o verde perde-se de vista e, protegido por toda esta calmaria, um pequeno riacho canta enquanto faz, também ele sem pressas, o seu caminho para jusante.
Não tem mais que uns dez centímetros de profundidade, e segue calmo por entre o vale, cristalino, fresco, brilhante, chegando mesmo em alguns pontos por fazer as vezes da estrada, ou caminho. Sim, que esta gente não se prende ou imobiliza pela falta desses luxos que são estradas alcatroadas e pontes... Não as há?! Não faz mal, arranja-se, aqui dá e lá vão eles cruzar o regato, não sem antes fazerem uns bons 20 metros ao sabor da corrente... É que na outra margem a continuação do caminho fica a uns metros de distância, mas não é isso que as travar.
Aliás, neste pequeno segredo algarvio não há nada que trave as gentes, pelo contrário. Ideia erra a nossa que não sabemos, tão pouco concebemos, vivências diferentes das nossas. Neste pequeno segredo algarvio as gentes não param ante nada, apenas esperam que tudo lhes esteja de feição para seguirem caminho e nota-se-lhes no rosto a tranquilidade e alegria com a escolha feita. Quantos de nós não gostaríamos de ver essa mesma tranquilidade e alegria nos nossos rostos ao olharmos o espelho?!
Foto: Miguel Fonseca, 2011
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